Hegemonia cultural
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Hegemonia cultural é um conceito formulado por Antonio Gramsci para descrever o tipo de dominação ideológica de uma classe social sobre outra, particularmente da burguesia sobre o proletariado, o que se manifesta, por exemplo, quando os interesses da alta burguesia de um país são identificados aos interesses de toda sociedade do país ou quando a historiografia se concentra apenas em grupos ou indivíduos de elite.
Segundo Gramsci, quase nunca é possível o domínio bruto de uma classe sobre as demais, a não ser nas ditaduras abertas e terroristas. Para o pensador sardo, correlacionar poder e classes sociais é, certamente, um imperativo de método, mas uma classe dominante, para ser também dirigente, deve articular em torno de si um bloco de alianças e obter, pelo menos, o consenso passivo das classes e camadas dirigidas. Para tanto, a classe dominante não hesita em sacrificar uma parte dos seus interesses materiais imediatos, superando o horizonte corporativo, de modo a propiciar, exatamente, a construção de uma hegemonia ético-política.
Ao estudar os mecanismos de construção desta hegemonia, Gramsci chega a um conceito fundamental na sua teoria política, a saber, o conceito de Estado ampliado, segundo o qual o Estado não é um puro instrumento de força a serviço da classe dominante, tal como o definiam versões mecanicistas do próprio marxismo, mas uma força revestida de consenso, coerção acompanhada de hegemonia. O Estado ampliado, assim, cabe na fórmula: sociedade política+sociedade civil{displaystyle {mbox{sociedade política}}+{mbox{sociedade civil}}}. E, nas sociedades de tipo ocidental, a hegemonia, que se decide nas inúmeras instâncias e mediações da sociedade civil, não pode ser ignorada pelos grupos sociais subalternos, que aspiram a modificar sua condição e a dirigir o conjunto da sociedade.
O sentido de progresso civilizatório, implicado na estratégia gramsciana, reside no fato de que, prospectivamente, todo o movimento deve acontecer no sentido de uma "reabsorção do Estado político pela sociedade civil", com o predomínio crescente de elementos de autogoverno e (auto)consciência. A contraprova disso é que, nos Cadernos do cárcere, formula-se de modo pioneiro uma crítica ao stalinismo, que, para Gramsci, apresentava traços preocupantes de hipertrofia do Estado ("estatolatria"), caracterizando assim uma situação de ditadura sem hegemonia, que não poderia subsistir por muito tempo.
Etimologia |
A evolução etimológica e histórica da palavra grega hegemonia, e de suas denotações, tem procedido da seguinte maneira:
- Na Grécia Antiga (século 8 a.C - século 6 d.C), hegemonia (liderança) denotava o domínio político-militar de uma cidade-Estado sobre outras cidades-estados, como na Liga Helênica (338 AC), uma federação de cidade-estado gregas estabelecida pelo rei Filipe II da Macedônia, para facilitar a utilização das forças armadas gregas contra a Pérsia.[1]
- No século XIX, a hegemonia (regra) denotava a predominância geopolítica e cultural de um país em outros países, como o colonialismo europeu impôs nas Américas, África, Ásia e Austrália.[2]
- No século XX, a denotação política-ciência da hegemonia (dominância) expandiu-se para incluir a dominação cultural, por uma classe dominante, de uma socialmente estratificada sociedade. Através da manipulação da ideologia dominante (os valores culturais e os costumes) da sociedade, a classe dominante pode intelectualmente dominar as outras classes sociais impondo a sua visão de mundo (Weltanschauung) que ideologicamente justifica o status quo social, político e econômico da sociedade, como se fosse um estado natural, normal e inevitável.[1][3]
Ver também |
- Revolução passiva
- Sociedade civil
- Hegemonia
- Masculinidade hegemônica
- Hegemonia regional
- Hegemonia tebana
- Crise orgânica
Referências
↑ ab The Columbia Encyclopedia, Quinta edição. (1994), p. 1215.
↑ Bullock, Alan; Trombley, Stephen, eds. (1999). The New Fontana Dictionary of Modern Thought. [S.l.: s.n.] p. 387–88
↑ Clive Upton, William A. Kretzschmar, Rafal Konopka: Oxford Dictionary of Pronunciation for Current English. Oxford University Press (2001)